Uma lancha chamada ‘Jesus’

Luiz Carlos da Cruz é jornalista

Fiquei boquiaberto com a reação raivosa de lideranças evangélicas do Brasil com a imprensa, principalmente com o Grupo Globo, eleito por parte de alguns irmãos como um império satânico, pelo fato de o jornal o Globo estampar no título de uma reportagem que a lancha onde estavam os mortos da tragédia de Capitólio se chamava ‘Jesus’. Vários veículos de comunicação trouxeram essa informação, jornalisticamente corretíssima, diga-se de passagem.

Inflamados pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro, que fez um post criticando a postura do jornal, muitos pastores saíram dedilhando pelas redes sociais que a Imprensa estava “debochando” ou “ridicularizando” a fé em Jesus, nosso salvador.

Desculpem-me pelo adjetivo, mas só posso dizer que essa postura é típica de ignorantes que adotaram um sistema político como sendo um “governo de cristãos” e, aparentemente, esquecem que o nosso Reino não é deste mundo.

Vamos a postagem do parlamentar que desencadeou essas reações em parte da liderança evangélica. “Se alguém ainda não entendeu contra o que estamos lutando, aqui uma breve amostra. Se você fosse o jornalista, faria uma matéria destas? Ainda mais num momento de dor… Qual a relevância desta informação? O que se deseja com isso?”, escreveu Eduardo.

Como jornalista, respondo ao deputado que traria essa informação, sim. Provavelmente todas aquelas lanchas tinham um nome, como é comum em embarcações e, mais uma vez respondendo ao post, digo que a informação tem relevância, sim.

Um dos maiores “jornalistas” da história, chamado Paulo de Tarso, sofreu um acidente com uma embarcação quando estava sendo levado prisioneiro à Itália e descreveu toda a situação nos mínimos detalhes.

Antes de continuar esclareço que estou, sim, me referindo ao Apóstolo Paulo como jornalista porque coube a ele reportar fatos da Igreja Primitiva e escrever praticamente metade do Novo Testamento.

Ao descrever a viagem, como faz um bom jornalista, Paulo de Tarso deu detalhes sobre tudo, explicou que o navio era da cidade de Adramítio, destacou os nomes de algumas pessoas que estavam na embarcação, a rota percorrida e continuou o relato após mudarem de embarcação, na cidade de Mirra, na Lícia.

Paulo previu que a embarcação correria perigo, tentou avisar o centurião que o ignorou. O naufrágio ocorreu na Ilha de Malta, mas felizmente, apenas o navio ficou destruído. Todas as 276 pessoas que estavam a bordo se salvaram.

A viagem prosseguiu em outro navio e, desta vez, o jornalista Paulo de Tarso deu mais detalhes ainda. Ele fez questão de descrever que o navio Alexandrino possuía emblema os deuses gêmeos Cástor e Pólux, ou seja, assim como a lancha ‘Jesus’, essa embarcação também possuía nome ligado a religiosidade, apensar de ser algo pagão.

Essa postura de parte da Igreja de Cristo é preocupante e me leva a acreditar que estamos nos distanciando dos dois principais pilares do Evangelho, que são “amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a ti mesmo”. Em nome de uma defesa de Jesus Cristo – somos capazes de destilar ódio contra coisas tão comuns.  Uma simples manchete de jornal vira alvo da raiva evangélica que se acentuou nos últimos anos entre nós evangélicos.

Em tempo: Em 1988 houve um acidente no Rio de Janeiro com 55 mortos. A Imprensa noticiou que a embarcação se chamava Bateau Mouche IV. A Imprensa tem o dever de detalhar uma notícia.

Que em 2022 nós, cristãos evangélicos, tenhamos mais amor ao próximo!

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